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O que você vê primeiro?

Escrito por no dia 27/03/2015

Em agosto de 1982 a minha mãe estava na maternidade para ganhar um bebê que estava sendo esperado para novembro. Esse bebê era eu e eu estava três meses adiantado na minha vinda. Nasci prematuro de seis meses e como consequência tive a sorte de precisar, desde sempre, de uma cadeira de rodas para me locomover.

Rafael Bonfim

Rafael Bonfim

 

Durante a minha infância vivi muito próximo à comunidade médica. O diagnóstico inicial do meu quadro motor não era muito animador e eu precisei do acompanhamento de uma equipe multidisciplinar por um bom tempo. Aos cinco anos eu tinha uma semana cheia, com sessões de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia, além de aulas de natação e escola.

Ao longo dos meus sete primeiros anos de vida eu passei por intervenções cirúrgicas também, a maioria delas para correção muscular. Foram sete no total e essa vivência me fez inclusive considerar seriamente em optar pela carreira da medicina. Mudei de ideia aos 12 anos. Sou absolutamente grato ao trabalho de todos e todas que me esticaram, alongaram, provocaram, pediram mais esforço e comprometimento e hora após hora e repetição após repetição de exercícios e tarefas, me fizeram avançar e chegar onde estou.

Mas mudei de ideia aos 12 anos.

Sempre estudei em escola regular (outra sábia escolha) e naturalmente o que eu recebia dos meus amigos de sala era a curiosidade e a espontaneidade infantil. Lidei poucas vezes com a crueldade sincera de meninos ou meninas que viam em mim um alvo bem fácil de piadas e chacotas. Acabei descobrindo muito tempo depois que isso não acontecia com muita frequência, porque quem era meu amigo não dava eco para isso. Então, o bullying acontece também por causa da plateia.

Quando entrei na adolescência, comecei a ter uma noção melhor do que eu queria fazer da minha vida e aos poucos passei a entender que eu tinha autonomia para fazer certas escolhas no meu acompanhamento médico. Enquanto eu era mais novo, as fisioterapeutas me deram algumas opções de apoio de locomoção: um andador, um par de muletas canadenses e a cadeira de rodas. Não demorou muito para eu perceber que a cadeira de rodas me dava mais possibilidades de mobilidade, eu podia ir à casa dos meus amigos com mais facilidade, me sentia mais confortável, além do que, eu dava cavalo de pau com o pessoal da escola, então a cadeira era bem mais divertida.

Por cima de tudo isso, aos 12 anos eu comecei a fazer teatro, como uma atividade extracurricular do meu colégio. Eu realmente gostei da prática e fiquei nela por cerca de 20 anos. Todos os anos eu me apresentava e era legal conversar com os convidados depois, saber das impressões, ouvir os meus amigos comentarem que as atrizes do grupo eram bonitas e fazerem, comigo, outras observações juvenis.

 

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Foi isso o que me fez mudar de ideia. Passei por algumas escolas de teatro e experimentei escrever e dirigir alguns espetáculos, ainda no interior de São Paulo. Estava decidido que eu seria um ator profissional. Mas conforme eu ia fazendo coisas que o público tinha acesso e as pessoas vinham conversar comigo, comecei a me perguntar sobre o que elas estavam falando. Elas tinham realmente gostado do trabalho para o qual eu contribuí, ou elas estavam elogiando um cadeirante que fazia teatro?

Saindo da adolescência e chegando à idade adulta, minha vida tomou outros rumos. Ingressei na faculdade de jornalismo, me formei e continuei estudando. Nos últimos sete anos, me aprofundei em três áreas do conhecimento, entre especializações e MBAs: sustentabilidade, empreendedorismo e gerenciamento de projetos, com a oportunidade de passar por escolas notáveis, como a FGV.

Ainda criança, eu tive a chance de morar por um tempo nos Estados Unidos, voltei com o inglês fluente e mantenho o idioma em dia até hoje. Então, além das minhas áreas de interesse, eu domino uma língua estrangeira. Quando eu tenho a chance de falar um pouco sobre a minha vida, normalmente recebo como reação a expressão de que eu sou um exemplo de superação. Discordo completamente.

Se eu aceitar essa percepção, eu deixo de lado todas as escolhas que eu fiz por causa da minha vontade e personalidade e passo a valorizar uma conquista, só porque eu tenho uma deficiência. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Então, afinal de contas, o que as pessoas veem primeiro?

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A cadeira de rodas é sem dúvidas um símbolo e no imaginário das pessoas não é nada agradável. Ela remete à limitação, a hospitais ou até a um estado de saúde frágil. Mas ela é inerente à minha presença, então não tem como esconder. Quando eu cheguei à Ponto Pessoal, isso pareceu um desafio interessante.

Estou consolidando uma carreira como palestrante e o principal foco do meu trabalho é a inclusão da pessoa com deficiência. Nesse contexto, o que aparentemente seria uma desvantagem para mim se torna um diferencial. A cadeira de rodas precisa estar em evidência, pelo menos, num primeiro momento.

Essa reflexão toda nos ajuda a entender o quão dependente da visão a nossa sociedade é. A dinâmica individual do “avalia, compara e julga” começa pelos olhos. É o primeiro contato que temos com quase tudo o que chega a nós. Ainda bem que não é absolutamente tudo que vai ter como porta de entrada esse sentido e não é todo mundo que precisa dele pra entender as coisas.

Gosto muito de compreender as percepções de quem é cego. Aliás, você já parou para pensar qual seria a nossa relação com dinheiro se ninguém enxergasse?

Se você pudesse ter uma característica marcante sua à vista, qual seria? Que impacto isso teria nas primeiras impressões das pessoas em relação a você?


SOBRE O COLUNISTA

Rafa Bonfim é jornalista, especialista em sustentabilidade, desenvolvimento de novos negócios e gerenciamento de projetos. Passou pela sala de aula da PUCPR, do Centro Universitário Positivo e Fundação Getúlio Vargas, buscando saber mais sobre os desafios globais que encaramos agora e que estarão conosco por um bom tempo.
Se locomove em uma cadeira de rodas desde o princípio da sua vida e hoje ministra palestras, oficinas e cursos de extensão sobre inclusão da pessoa com deficiência. É Diretor de Protagonismo na Diversidade e Inclusão, na Associação Brasileira de RH, escreve sobre o tema para a Gazeta do Povo e é membro da agência de palestrantes Inspiradores.
Acredita em um mundo onde as pessoas encontram soluções justamente por serem diferentes umas das outras e defende a consolidação de conceitos só bem depois da primeira impressão. O desconhecido não pode impedir avanços, mas sim, abrir possibilidades.

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